Ipiranga, 895

01 Jun 2011

Ipiranga

Ipiranga

Na avenida Ipiranga, quase na esquina com a São João, um gigante bege-amarelo desbotado, pichado de letras pretas em seus doze andares, se destaca na paisagem. Embaixo, as pilastras de 4 metros de altura, que um dia davam ar de grandiosidade à entrada do edifício, hoje têm suas ferrugens expostas aos pedestres, e vão sendo preenchidas as poucos com anúncios de papel sulfite e pequenas pichações de quem teve preguiça de subir mais alto para deixar sua mensagem.

Luzinhas de Natal esquecidas sabe-se lá quando acumulam poeira e adornam tristemente o alto da fachada, como plantas secas e quebradiças. A entrada lacrada tem uma porta cinza disfarçada no cimento, onde o desenho de um rosto delicado, com grandes olhos voltados para cima, observa com pesar o edifício abandonado sobre sua cabeça. É por esta porta que o segurança do prédio, Alex, entra para trabalhar todos os dias. Sua função é impedir novas invasões – o edifício foi ocupado por sem-teto no fim de 2010.

Apesar da decadência escancarada, o imóvel do número 895 da Ipiranga é uma propriedade de poderosos.

Em 1941, ele pertencia a duas crianças – Mario Rubens Costa, 10 anos, e Maria Regina Costa, 8 anos. Os irmãos moravam em Campinas e talvez nem conhecessem o edifício quando o receberam. Passados 12 anos, em 1953, Maria Regina se casou com um ótimo partido – um homem chamado Antônio Ermírio de Moraes. Com a união, sob regime de comunhão universal de bens, ele se tornou co-proprietário do imóvel.

À frente do Grupo Votorantim, Antônio Ermírio ocupa hoje o número 193 da lista de pessoas mais ricas do mundo da revista Forbes – o 7o mais rico do Brasil, com patrimônio de US$ 5,3 bilhões. Mesmo assim, ele, sua mulher e seu genro deixaram o prédio da avenida Ipiranga acumular uma dívida de R$ 41.681,43 de IPTU, referente aos anos de 1998 e 2004.

Abandonado, o edifício foi vendido para outros poderosos em 2008, por R$ 2,2 milhões. A compradora foi a Campinas Empreendimento Imobiliário, de propriedade da HM Engenharia, que por sua vez faz parte da CCDI, sigla para Camargo Correa Desenvolvimento Imobiliário.

A propriedade é, portanto, do Grupo Camargo Correa, que atua nas áreas estratégicas de engenharia, construção, geração e distribuição de energia, concessão de serviço público, incorporação imobiliária, indústria naval, óleo, gás, cimento, siderurgia, calçados e nos setor têxtil. São 58 mil funcionários, atuando em 18 países. Em 2010, o grupo doou R$ 91,7 milhões a campanhas eleitorais de diversos candidatos, somente no primeiro turno.

Na Camargo Correa ninguém quis falar sobre o prédio, o fato de ele estar abandonado e se há planos para uma futura ocupação.

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